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Carlos Carvalho - Texto breve

As alegres meninas da Rua Quinze

     - Peça em um ato de Carlos Carvalho -
PERSONAGENS
    ROSAURA: cinqüenta e nove anos , solteira.
   LINDAURA: sessenta e três anos, solteira, irmã de Rosaura
.

CENA - Sala de um pequeno apartamento. Os móveis, antigos e pesados, revelam que a família habitava, anteriormente, uma casa abastada. Agora, no pequeno espaço da sala, se amontoam e parecem desproporcionais ao ambiente. Ainda no escuro, ouve-se um prefixo musical como os das antigas rádio-novelas. A música vai diminuindo, e a voz grave, empostada e pastosa de um rádio-ator inicia uma gravação.

GRAVAÇÃO - Cleópatra estirou-se no triclínio. Seu peito arfava e toda ela parecia um animal no cio. Num ímpeto, Marco Antônio jogou-se-lhe aos seus pés. De um só golpe arrancou o tênue véu que encobria aquele corpo alabastrino, fazendo surgir, como dois pombos, os seios alvos e pequeninos. Sôfrego, sugou os mamilos entumescidos e rubros como rubis. Insaciável, a língua desceu os seios, caminhou voraz pelo ventre marmóreo, passeou alucinada pelas coxas lisas e torneadas como colunas gregas. Cleópatra gemia e cada suspiro seu era como uma ordem ditada ao bravo guerreiro amante: em frente! Avante! ( A luz começa a crescer em resistência Lindaura está sentada, concentrada na leitura de um livro). Sem mais se conter, a rainha gritou enlouquecida, quando a língua dele, afastando a vegetação do seu jardim de Vênus, afundou, como um dardo flamejante, no poço dos prazeres, cujas bordas palpitavam na redescoberta do amor:

LINDAURA: (Baixa o livro, levanta os olhos, suspira) Como um dardo flamejante!

ROSAURA: (Entra carregando um urinol com uma mão e tapando o nariz com a outra) Cruzes! A merda da mamãe cada dia fede mais!

LINDAURA: (Assustada , fecha o livro rapidamente) Que maneira de falar, Rosaura! Parece um estivador!

ROSAURA: E daí? Falo como quero. Estou na minha casa.

LINDAURA: Na casa da mamãe, você quer dizer.

ROSAURA: Já é quase minha. Quando ela morrer, esta casa será nossa.

LINDAURA: Mas ainda não morreu

ROSAURA: (Desanimada) É. Pelo menos ainda respira.

LINDAURA: Ela não anda, não fala e não vê. Mas quem pode afirmar que não ouve?

ROSAURA: Ora, a gente percebe essas coisas, não é Lindaura? O próprio doutor Moisés disse que...

LINDAURA: Ora, doutor Moisés! Incompetente e velho! Não fosse médico da família, juro que procurava outro para cuidar da mamãe.

ROSAURA: Velho, o doutor Moisés? Se foi nosso colega de ginásio?!

LINDAURA: Porque estava atrasado. O que prova sua incompetência.

ROSAURA: (maliciosa) Você fala de despeitada.

LINDAURA: Não sei por quê!

ROSAURA: (Senta ao lado dela, sempre segurando o urinol a distância) Pensa que eu não sei? Sempre tiveste uma queda por ele. Desde o tempo do colégio.

LINDAURA: (Ofendida) Rosaura!

ROSAURA: Ora, mana, deixa de bobagem.

LINDAURA: (Tentando desconversar) Cuidado com esse urinol aí! vais acabar virando no tapete. E estamos sem faxineira.

ROSAURA: (Insistindo) Confessa.

LINDAURA: O quê?

ROSAURA: Essa história do doutor Moisés . Tem anos, não é?

LINDAURA: Mas que loucura meu Deus.

ROSAURA: Eu vejo as coisas, mana.

LINDAURA: Sabe o que mais? Acho que você está ficando esclerosada. É isso. Velha e esclerosada.

ROSAURA: Ah, é? E quando ele casou com a Vidinha? Hein? Quem é que teve um febrão de quarenta graus? Hein? Quem foi que chorou três dias e três noites, enfurnada no quarto? Hein?

LINDAURA: Febre terçã, todo mundo sabe disso.

ROSAURA: E quando a Vidinha morreu de parto? Hein? Quem foi que teve uma crise histérica? Quem foi que riu tanto que precisou apanhar para se acalmar? Hein?

LINDAURA: Nervos. Eu sempre fui muito sensível.

ROSAURA: Sensível, é? E por que você não quer trocar de médico, se o doutor Moisés é tão velho e incompetente?

LINDAURA: Já disse. Mamãe não gostaria de outro aqui dentro. Tenho certeza.

ROSAURA: Mamãe não tem querer. Está morta.

LINDAURA: Rosaura!

ROSAURA: Está bem, está bem. Acabou o assunto.

LINDAURA: Ainda bem.

ROSAURA: Vou despejar isto aqui. Não agüento mais o cheiro (sai)

LINDAURA: (só) Dr. Moisés! Era só o que faltava! Esclerosada! (Retoma o livro , volta a concentrar-se na leitura)

GRAVAÇÃO: Num ímpeto, Moisés jogou-se-lhe aos pés. De um só golpe arrancou o tênue véu que encobria aquele corpo alabastrino, fazendo surgir, como dois pombos, os seios alvos e pequeninos. Sôfregos, sugou os mamilos entumescidos e rubros como rubis. Insaciável, a língua desceu dos seios, caminhos voraz pelo ventre, passeou alucinada pelas coxas lisas. Ela gemia e cada suspiro seu era como uma ordem ditada ao bravo amante: Em Frente! Avante!

ROSAURA: (entra novamente com o urinol) Acho que a privada está entupida. A gente puxa a descarga e a porcaria custa a descer.

LINDAURA: Chama o zelador.

ROSAURA: Detesto tratar com essa gente. São todos uns ignorantes e aproveitadores.

LINDAURA: É que você dá confiança.

ROSAURA: (indignada) Eu?

LINDAURA: É. Você. Ainda ontem eu vi quando você atendeu o carteiro. Ele pediu água e você em vez de pegar da torneira, buscou do refrigerador.

ROSAURA: Fazia tanto calor.

LINDAURA: Essa gente não entende de delicadeza. Tem que ser tratada com rédea curta. (retoma a leitura)

ROSAURA: O que você está lendo?

LINDAURA: (disfarçando) Madame Deli. Encontrei na arca de mamãe.

ROSAURA: Qual deles?

LINDAURA: Amor de Perdição.

ROSAURA: Mas este não é do Camilo Castelo Branco?

LINDAURA: (fingindo surpresa) É verdade! O nome é o mesmo! Eu nem tinha me dado conta! Que coincidência, não é?

ROSAURA: (desconfiada) Muita. Deixa eu ver.

LINDAURA: (assustada) Não.

ROSAURA: Qual é o problema?

LINDAURA: (recompondo-se) Não gosto que ninguém pegue no livro que estou lendo.

ROSAURA: Só uma olhadinha.

LINDAURA: Não. Depois que eu terminar eu empresto.

ROSAURA: Egoísta!

LINDAURA: Esclerosada!

ROSAURA: Pode ser. Mas quatro anos mais moça.

LINDAURA: Como se isso adiantasse alguma coisa.

ROSAURA: Se adianta, não sei, mas sempre dá uma certa tranquilidade quanto ao futuro.

LINDAURA: Tem muita gente que morre cedo.

ROSAURA: Na nossa família, não, mana! Não vê mamãe? Quinze anos em cima da cama. Não fala, não vê, não anda, não ouve.

LINDAURA: Ninguém pode dizer que não ouve.

ROSAURA: Se ouvisse, já tinha morrido. De desgosto.

LINDAURA: Desgosto, por quê?

ROSAURA: Pela filha.

LINDAURA: (na defensiva) Qual delas?

ROSAURA: (saindo) Este é que é o problema.

LINDAURA: Rosaura!

ROSAURA: (parando) Que é, mana?

LINDAURA: Nada. (Rosaura vai sair, novamente. Lindaura chama-a) Rosaura!

ROSAURA: Sim.

LINDAURA: Deste comida à mamãe?

ROSAURA: Dei o suco. Assoprei na boca pelo canudinho, mas ela botou tudo fora, pelo nariz, um nojo.

LINDAURA: Pois tenta de novo. Hoje é o teu dia de cuidar dela.

ROSAURA: (voltando) Sabe, mana? Às vezes eu penso que é maldade a gente ficar forçando a mamãe a viver. Ela está morta. Será que ninguém percebe?

LINDAURA: Rosaura!

ROSAURA: E quando tudo isto acabar, o que é que a gente vai fazer, hein? Hein, mana?

LINDAURA: Continuar a viver.

ROSAURA: Continuar o quê?

LINDAURA: A viver.

ROSAURA: Como?

LINDAURA: Como sempre, ora!

ROSAURA: (decidida) Acho que bou chamar o zelador. Se a privada continuar entupida, vamos acabar afogados na merda. (sai).

LINDAURA: (só) Como se adiantasse! (retoma a leitura)

GRAVAÇÃO: Sem mais conter, gritou enlouquecida quando a língua dele, afastando a vegetação do seu Jardim de Vênus, afundou, como um dardo flamajante, no poço dos prazeres, cujas bordas pulsavam na redescoberta do amor. (Lindaura deixa cair o livro. Leva as mão aos seios. Mas não ouve som algum. No fundo, dissimulada , Rosaura observa, maliciosa. Cresce a música da rádio-novela, enquanto a luz morre em resistência).

Obs.: este texto nunca foi encenado, mas foi publicado no Caderno Porto & Vírgula - Carlos Carvalho. A Coordenação de Artes Cênicas está preparando a publicação desta e outras peças inéditas de Carlos Carvalho, em um volume denominado Terror e miséria do III Mundo (anotação de Carlinhos em um de seus manuscritos).

 




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