PMPA/SMC / Prêmio Dramaturgia / Autores Premiados / 2002 / 1º colocado

Emanuel Nogueira

com Os cactos

Cresci em pequenas cidades do interior do Ceará, aonde o progresso chegava com passos senis, sem desarrumação, resistindo às mudanças com suas estradas carroçais, seus pistoleiros, padres bajuladores, prefeitos devassos, bichas enrustidas por pura questão de sobrevivência, bêbados às pencas, prostitutas maternais, homens honrados, agricultores famintos, sol de lascar o quengo, moças virgens até o último fio de cabelo, carolas pudicas até as seis da tarde. Perto dessas figuras e longe do progresso urbano vivi meus melhores anos, furtando manga e cajá, encharcando-me debaixo da chuva, dando ouvido às histórias mentirosas dos ciganos sábios e ladrões, sonhando com gols que fiz e outros que nunca iria fazer, fingindo febre pra comer bolacha cream-cracker Fortaleza com guaraná Antártica, iguaria que a minha mãe me servia cheia de ternura. E ainda sobrava tempo para visitar uma velha estante de madeira alojada num canto da sala. Um lugar reservado exclusivamente para acolher a retórica persuasiva dos caixeiros viajantes e seus livros com promessas milagrosas. Todos adquiridos com muito prazer pelo meu pai, Nelito, um militar de coração mole e apaixonado pelo saber.

     Para a maioria dos meus onze irmãos, aqueles livros serviam, se muito, para enfeitar a sala. Para mim, era uma grande janela donde eu via coisas que no mundo em minha volta não havia. Fuçando a estante, conheci os horrores da Segunda Guerra Mundial, penetrei pela enciclopédia de iniciação sexual, saboreei receitas que nunca estiveram postas a nossa mesa, conheci a doutrina kardecista catalogada numa imensa bíblia em igual tamanho e brochura da Bíblia Sagrada. Puro entretenimento.

     Até que um dia encontro um livro de uma edição vulgar com papel jornal que falava de um lugarejo chamado Macondo, habitado por figuras parecidas comigo e com a minha gente. Havia ciganos, escroques, família, desejos contidos, dias intermináveis de tão quentes que eram. Fiquei maravilhado com Cem anos de solidão. Recordo que passei duas noites em claro artificial com olhos colados naquelas páginas amareladas, respiração freada, entre lágrima, silêncio e uma agradável sensação de que não estava sozinho. O livro que era do meu irmão, Jean, ator e diretor teatral, deixou de sê-lo. Roubei este e muitos outros ao longo dos anos. Como ele era um sujeito errante, os livros estariam (e ainda estão) mais seguros em minhas mãos.

     A verdade é que depois desse monumental romance de Gabriel García Márquez havia um outro Eu dentro de mim que queria ser escritor. Foi, aliás, este afã romântico que me impulsionou a ser jornalista, pois tinha a tola idéia de que nas universidades de jornalismo se ensinava a escrever. Falácia. Nessas universidades, só se fabricam burocratas, melhor dizendo, escreventes, como definiu de modo eufêmico Roland Barthes. Não aprendi a escrever nos bancos acadêmicos, mas lá encontrei um grande amor, minha esposa, Fátima. Lei da compensação? Talvez.

     Não desisti. Continuei lendo um autor, depois outro e outros. Vagava pelos sebos. Suprimia a comida para comprar livros. Quando dei fé descobri que estava completamente apaixonado pelo cheiro, velhice, maciez, poeira, saber, cara, curva, dos livros. Tanto que ganhei de troco uma rinite alérgica. Só pensava em ser escritor. Nunca que conseguia. Rabiscos aqui, poesias piegas ali, contos inacabados, romances que nunca passaram da primeira página. Pela brutal limitação tive que me resignar com a privilegiada posição de leitor. Até que, no ano de 1998, encontro uma nota de jornal chamando para a inscrição a um Curso de Dramaturgia, do Instituto Dragão do Mar, na qual se lia que iriam nos ensinar a escrever roteiro para cinema e teatro. Sempre adorei teatro, mas só como espectador. Não conhecia nada de dramaturgia. Mas, como prometiam que iriam me ensinar a escrever, topei. Fui fazer a seleção. Tomei um susto. Eram dezenas e dezenas de candidatos. "Será que é tão vantajoso escrever para teatro e cinema?", pensei. Aprendi muito. E foi nesse aprendizado que conheci um talentoso grupo de dramaturgos e amigos: Pablo Assumpção, Haroldo Aragão, Aldo Marcozzi, Edilberto Mendes, Marcos Barbosa, e depois a Fran Teixeira. Na companhia dessa gente graúda fui aprendendo o que era dramaturgia, principalmente depois que tive o prazer do convívio com o amigo José Mapurunga, um dos maiores dramaturgos desse Brasil.

     No ano de 2000, dei-me o atrevimento de dedilhar minha primeira peça, A serva, sobre um fenômeno religioso que ficou conhecido como "o milagre de Juazeiro". A peça foi montada pela Companhia de Teatro Livre Mente, de Juazeiro, ganhou o prêmio do Encena Brasil, do Ministério da Cultura, e depois conquistou a categoria de melhor texto no Festival Amador de Acopiara / CE. Isso me animou muito. Aí, veio Os esquecidos (2001), uma comédia política sobre as risíveis agruras de três pacientes terminais no corredor de um hospital público. Com Os esquecidos, fiquei com o segundo lugar no concurso de Literatura Domingos Olímpio, realizado pela Prefeitura de Sobral / CE. Depois escrevi O evangelho dos ladrões (2001), um texto apócrifo que relata a última hora de vida de Jesus Cristo na companhia nada agradável de dois bandidos. Até o momento ninguém se intrometeu a mexer neste vespeiro.

     Então, nasceu Os cactos (2002), com o qual ganhei, para minha grande surpresa, o Prêmio Carlos Carvalho, reconhecido prêmio da dramaturgia nacional. Em seguida, escrevi Antes do Sol, uma tentativa de recompor os elementos da tragédia em solo sertanejo. Não sei se consegui, mas com este texto ganhei o primeiro lugar no Concurso de Dramaturgia Eduardo Campos, da Prefeitura de Fortaleza.

     Nesse entremeio ocupei a delicada função de crítico teatral no jornal O Povo, fiz uma pesquisa sobre a obra de José Mapurunga, que resultou na elaboração de duas comédias: O diário de Nabucodonosor, que estará compondo uma coletânea de textos de teatro contra a AIDS, organizada por Daniel Souza, e O fim dos dias felizes, que pelo seu teor apócrifo deve seguir o mesmo destino de O evangelho dos ladrões, quero dizer, ambos terão o tempo como resposta.

     No momento estou montando, com meu irmão Jean, o texto Como vivem os mágicos, um monólogo inspirado na obra do escritor mineiro Murilo Rubião. Poderia, enfim, escrever mais mil páginas sobre minha irrequieta paixão pela arte da dramaturgia, e é claro que não farei, pois ainda há muito o que aprender. O melhor, na verdade verdadeira, seria desistir, porém quanto mais esforço empreendo para não perder tempo com essa arte, mais tempo ela me rouba.

Emmanuel Nogueira

(Texto publicado no livro 4º Concurso Nacional de Dramaturgia - Prêmio Carlos Carvalho, 2004)




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