PMPA/SMC / Prêmio Dramaturgia / Autores Premiados / 2004 / 1º colocado

Marcos Barbosa

com Avental todo sujo de ovo

Eu vinha de um tempo de tristura com minha pena, vinha de acompanhar, na cidade de Londres, a encenação de um texto meu que, mesmo escrito com toda minha entrega e esforço, instaurava em mim o imenso vazio de quando percebo a falta da pancada mais funda de meu coração naquilo que eu opero com o mais caro dos cuidados: meus textos. Vai, numa tarde de domingo, fui arrebatado de volta à alegria por um chamado disfarçado num mote dramatúrgico que ouvi de meu sogro: um garoto que foge de casa para crescer mulher e a família do garoto que sofre com a inexplicável fuga do filho. Pedi a idéia para mim, Carlos Barral concedeu. Se não tivesse concedido, eu a teria roubado. Era início de 2003.

O resto veio a princípio muito rápido: o nome do menino tinha de ser Moacir, como o do filho de Iracema, “o nascido de meu sofrimento”, e ele dublaria Clara Nunes, que sempre me encantou tanto, e voltaria para casa em data próxima ao dia das mães e, por isso, o título da peça seria um verso da célebre valsinha de Herivelto Martins e David Nasser, e a mãe do menino seria Alzira e sua vizinha seria Noélia e o pai do menino seria Antero, homem seco de um dos lados do corpo e, como tudo já estava tão certo, eu me prometi que escreveria a peça em no máximo duas ou três semanas.

Qual o quê?

Entre o primeiro rascunho e a versão mais ou menos final do texto, contei meses de revisões imensas, talvez um ano. O mérito deste melodrama, se ele tem algum, eu o divido então com os amigos que durante esse tempo se dispuseram a ler e a comentar, sempre com muito afeto, as sucessivas versões do texto. Entre esses leitores há um bando organizado, o Grupo Peripécias, formado principalmente por alunos egressos do Colégio de Dramaturgia do Instituto Dragão do Mar, de Fortaleza, aos quais eu devo muito mais que os comentários acerca do texto: devo um tanto enorme de minha fé na dramaturgia, no teatro e na arte.

Aliás, paro aqui para dizer que o Prêmio Carlos Carvalho, ao premiar Avental todo sujo de ovo, concede pela terceira vez um prêmio a um aluno do curso de dramaturgia do Instituto Dragão do Mar. Antes de mim veio Emmanuel Nogueira (primeiro prêmio no 4º concurso, com Os Cactos) e, antes dele, José Maria Mapurunga (primeiro prêmio no 2º concurso, com A Farsa do Panelada). O Colégio de Dramaturgia e o próprio Instituto Dragão do Mar já não existem mais, foram destroçados pelos descontinuadores da política cultural de Paulo Linhares, mas a semente plantada tem dado muitos frutos. Eu sou apenas mais um.

Nesse final de ano de 2005, enquanto escrevo este arremedo biográfico, conto com cerca de dez peças de minha autoria, quase todas já encenadas, algumas mesmo em terras distantes, de Inglaterra, França, Portugal e Itália. Trabalho sempre para que cada um desses textos seja testemunho de minha fé no teatro como instauração de um encontro afetivo, amoroso, muito simples e muito sincero, entre cada um dos muitos que fazem a cena, e entre a cena e a platéia. Às vezes penso que fui mais bem sucedido neste meu intuito, às vezes penso que menos. Avental todo sujo de ovo – eu digo para mim mesmo, ainda com muita fé – há de ser antes um de meus melhores exemplos de dramaturgia para um teatro simples, pequenino, caseiro, feito a mão.

A trajetória de escrita desse filho de Fortaleza, nascido em 1977 e dramaturgo desde 1996 (foi quando escrevi Os Sinos) persevera, avança. Hoje emigrado para Salvador, onde sou aluno de meus alunos no curso de artes cênicas da FSBA e onde devo assumir em breve a posição de professor de dramaturgia da Escola de Teatro da UFBA (na honra imensa e alumbrada de poder dar meu melhor no seguimento ao trabalho de Cleise Mendes), vou encontrando meu pouso no teatro, na vida.

Vida compartilhada e muito devida a minha família, aos lá-de-casa, em Fortaleza (com os quais eu devo ter faltado tantas vezes), vida que segue compartilhada – agora já faz anos – com Cláudia. Aprendi muito com eles todos sobre o amor e, por isso, nenhum agradecimento faria justiça.

Marcos Barbosa

(Texto publicado no livro 5º Concurso Nacional de Dramaturgia - Prêmio Carlos Carvalho, Porto Alegre, 2006)




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