PMPA/SMC / Prêmio Dramaturgia / Autores Premiados / 2004 / 2º colocado

Edmundo de Novaes Gomes

com Jocasta Tirana

Descobri que ia morrer. Foi por isso que, depois de quase 15 anos de jornalismo e publicidade, resolvi escrever para mim mesmo. Eu contava, então, 36 anos, e, mesmo que este sentimento da morte inexorável possa parecer tardio, foi isso que me levou a escrever o romance “Falar”.

Com este primeiro livro, escrito entre minhas atividades como professor universitário, ganhei o “Prêmio Casa de Cultura Mario Quintana 2003”. O romance, publicado pela Editora Nova Prova, de Porto Alegre, conta uma história de amor e ódio em que o tecido lingüístico é um dos principais protagonistas.

Deste primeiro romance pra cá, não parei mais. Este ano, minha novela infanto-juvenil “Por onde andam meus sapatinhos?” será publicada pela Editora Dimensão. Além disso, meu segundo romance, “Quase Nada”, espera, na gaveta, alguma casa que corra o risco de publicá-lo.

Digo risco porque acredito que minha escrita não mede palavras quando se trata de polemizar. Os temas que mais abordo são assuntos incômodos como incesto, pedofilia, coprofagia e travestismo. E tento encarar tais temas a partir de uma linguagem que mistura a crueza do relato com a mágica da poesia. Delírio puro.

No teatro, eu, que nasci em 1965 e sou pai do João Gabriel e da Maria Luiza, já assinei algumas traduções e adaptações. Uma delas, “Noites Brancas”, da novelinha homônima de Fiódor Dostoiévski, percorreu o Brasil sob a direção de Yara de Novaes, minha irmã mais nova, e a interpretação de Luiz Arthur e Débora Falabella.

Este ano, meu nome estará em cena em três espetáculos: a adaptação do romance “Falar”, feita pela Cia. Pierrot Lunar; o drama “Quando você não está no céu”, de minha própria lavra, montado pela Odeon Companhia Teatral; e “Servidão”, adaptação de “Of human bondage”, de Somerset Maughan, com temporada no Rio de Janeiro. Além disto, meu conto “E a situação, como é que está?” vai virar curta-metragem no cinema, sob a batuta do diretor Carlos Gradim.

“Jocasta Tirana”, peça que vocês poderão ler neste livro, permanece, até agora, inédita. Trata-se de minha primeira incursão totalmente autoral no terreno cada vez mais movediço da dramaturgia. Uma peça que mostra aquilo que eu de fato sou: alguém trepidantemente ligado em questões da ordem do significante, que ainda enxerga no texto o ingrediente mais importante da cena teatral.

No palco desta peça, o dia ainda não amanheceu e a cidade grega de Tebas transpira mais uma vez a peste. Alguma peste não idêntica, mas semelhante àquela que, há alguns anos, foi dissipada  com uma resposta certa dada a uma esfinge.

Então, a Esfinge não devorou Édipo e Tebas. O rapaz, vindo de outro lugar e fugindo de um destino que pressagiava que ele mataria seu próprio pai e desposaria a própria mãe, decifrou um enigma e, descobrindo-se homem, tornou-se rei. Rei de Tebas.
E a recompensa por ter salvado a cidade não foi apenas a coroa: Édipo ganhou também a mão da rainha, Jocasta. Com ela, Édipo vive um reinado aparentemente tranqüilo. O casal gera quatro filhos. Tebas vive anos de paz e prosperidade até que, mais uma vez, a peste vem para aterrorizar a cidade.

O que foi descrito acima pode ser encontrado no mito grego e, também, na tragédia exemplar de Sófocles. Tudo isto e muito mais. Tudo o que ronda o imaginário ocidental a partir de uma herança helênica que a cultura pós-moderna absorveu através da arte, da filosofia e da psicanálise.

Poucos não sabem que esse Édipo era o filho de Jocasta, tendo matado seu próprio pai, Laio. Na tragédia de Sófocles, o dia amanhecerá e todos esses mistérios serão desvendados. Só o que não se sabe é mesmo o que Édipo e Jocasta disseram um ao outro na noite anterior à desse dia que amanhece.
Nesse sentido, “Jocasta Tirana” busca uma leitura aberta sobre esta última noite do casal mitológico. Em tal abordagem, que é uma espécie de apêndice para minha dissertação de mestrado em literatura, Jocasta e Édipo estão presos num quarto do palácio e, enquanto sentem o cheiro da peste e esperam que o dia amanheça, falam de seus próprios temores, dores, amores, tragédias.

Para Jocasta e Édipo, é mesmo inevitável que o dia amanheça. Assim como são impossíveis respostas exatas sobre o que aconteceu nesta última noite. Afinal, qual o sentido de estarmos todos, personagens e platéias, neste mundo intransigente com o destino dos seres humanos? Talvez perceber na alma, como acho que percebi, que a morte, mandada pela Moira que tece os fios, é mesmo inexorável.

Edmundo de Novaes Comes

(Texto publicado no livro 5º Concurso Nacional de Dramaturgia - Prêmio Carlos Carvalho, 2006. Para ler o autor na internet, entre no blog:  http://cidadaocao.blogspot.com )




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