PW Tambor PortoWeb
Entrevista

A Música e as palavras de Celso Loureiro Chaves

01/02/2010


Agraciado com o Prêmio Joaquim Felizardo, que irá homenagear os destaques culturais de

Porto Alegre, no ano de 2009, o músico, professor e escritor Celso Loureiro Chaves fala - nessa entrevista exclusiva ao PortoWeb - sobre sua formação, seus projetos e a influência de Armando Albuquerque em seu trabalho. 

Como instrumentista, ele lançou em 2001 o disco Uma idéia de café – A música para piano de Armando Albuquerque, que ganhou o Prêmio Açorianos de Melhor CD Erudito. Suas crônicas publicadas quinzenalmente no jornal Zero Hora foram compiladas no livro Memórias do pierrô lunar e outras histórias musicais, editado pela L&PM em 2006. Celso Loureiro Chaves, doutorou-se na Universidade de Illinois, voltando a Porto Alegre em 1989. Hoje é o professor titular de História da Música e de Composição no Departamento de Música da Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS.

No ano em que completa 60 anos, o prêmio é uma grata surpresa para o pianista que descobriu a inclinação para música ainda menino, aos seis anos. A cerimônia de entrega do Prêmio Joaquim Felizardo ocorrerá no dia 13 de abril, às 20h30min, no Teatro Renascença.

Confira na íntegra a entrevista:

PortoWeb: Fale um pouco da sua formação como músico.
A minha formação como músico foi praticamente toda feita na Universidade. Ou seja, eu entrei na UFRGS ainda num curso que se chamava curso fundamental de música, lá no início da década de 60. Depois, fiz o vestibular para composição e regência e continuei no curso universitário. Completei a minha formação com doutorado nos Estados Unidos na área de composição musical.

PW: Como é o cenário da música erudita no Rio Grande do Sul?
Nós, tradicionalmente ou historicamente, dentro da música erudita no RS, temos ciclos. Ciclos de grandes realizações, grandes grupos, uma efervescência muito grande, apoio da empresa privada, do governo. E temos períodos de baixa, onde esses apoios desaparecem e de alguma forma escasseiam os músicos, os organismos. Nós estamos em um período de baixa nesse momento.

PW: Por que isso acontece?
É cíclico. É histórico. Para explicar isso precisaríamos ir para área de economia da cultura. Eu só tenho o testemunho a dar sobre isso.

PW: Isso acontece porque a atividade da música erudita no “mercado”, ela está muito mais ligada a patrocínio de grandes empresas ?
A gente tem os dois extremos. A gente tem tanto os projetos que são patrocinados pelas grandes empresas, como nós temos projetos mais caseiros, vamos dizer assim. Em Porto Alegre temos dois eventos praticamente estáveis. Um se chama Música de Porto Alegre e o outro é o Contemporânea. O Música de Porto Alegre é realizado várias vezes por ano. Já  o Contemporânea uma vez por ano. Essas iniciativas contam com pouquíssimo apoio, tanto  estatal como de empresas. Nos dois casos quem promove os festivais são os grupos de músicos interessados.

PW: O piano foi seu primeiro instrumento?
O piano foi o meu primeiro e único instrumento. Eu comecei a estudar piano aos seis anos de idade, por livre e espontânea vontade e ele segue sendo o meu instrumento até hoje.

PW: Em uma entrevista anterior mencionaste que na época eram mais mulheres que tocavam piano e isso causava uma estranheza.
Sim, nós tínhamos uma tradição de o piano ser um instrumento no Brasil das moças casadoiras. Eu tive o privilégio de ser aluno de um dos grandes professores de piano do RS que é Milton de Lemos. Então, eu já comecei a estudar com aquela formação de piano espartana, rígida, responsável. Depois, fui aluno da professora Zuleica Rosa Guedes, que também é consideradíssima em termos de honestidade artística e musical.

PW: Tu tinhas na família alguém que tocava?
Não, ninguém. Eu disse “Eu quero aprender a tocar piano”, essa foi a minha frase. Erramos um pouquinho aqui, acertamos um pouquinho ali. Fui dando para a coisa.

PW: Quando começou o seu interesse pela música erudita?
Desde sempre. Eu já comecei aos seis anos de idade com a música erudita. Já toquei algumas coisas um pouco fronteiriças ao jazz, mas o meu chão, o meu terreno é música erudita.

PW: Que compositores o influenciaram?
Em estudo de composição eu também fui muito feliz, porque tive um grande mestre de composição que foi o compositor Armando Albuquerque. Ele foi o meu professor de composição e era um modelo de músico, um modelo de compositor. Ele tem uma influência que ultrapassa o que eu possa ter aprendido com ele. Naquele tempo, alguns professores de composição achavam que o importante era formar uma escola de composição no sentido que todos os alunos saíssem iguais ao mestre. O Armando Albuquerque era exatamente o oposto disto. Ele dizia que cada aluno deveria ser como quer. E isso foi uma das coisas mais importantes que eu aprendi para a vida. Hoje, como professor de composição, eu pratico isso 100%. E é o que, aliás, diferencia o ensino da composição hoje no RS em relação aos outros centros, porque tanto eu, quando o professor Antônio Carlos Borges Cunha, que somos os dois professores de composição da Universidade, temos esse mesmo entendimento, de respeitar a individualidade do aluno.

PW: Você é também escritor, professor e coordenador da divisão de Pós-Graduação da UFRGS. Como todas estas atividades se encaixam?
A gente é um pouco esquizofrênico. Dever de ofício. Eu entrei na Universidade muito cedo como aluno e muito cedo como professor. Desde que voltei do doutorado me comprometi com a UFRGS de auxiliar aonde pudesse ser útil, não apenas em música, mas também na administração universitária. Quanto a parte da escrita, quem me levou a escrever pela primeira vez em um jornal foi o P. F. Gastal, ainda no Correio do Povo. E eu comecei a fazer crítica, fiz crítica de música no Correio do Povo e quando a Zero Hora abriu o caderno Cultura eu participei já na primeira edição. Essas  atividades, a de músico prático, pianista, compositor, etc, de escritor e de administrador universitário, elas tem que conviver e elas convivem. Eu nem gosto de pensar muito em como elas convivem, mas elas convivem!

PW: E o tempo que tu tens para praticar, para compor ele é suficiente?
Não. Ele nunca é suficiente para nenhuma das atividades. Mas cada uma dessas atividades alimenta a outra.

PW: Sentas ao piano diariamente?
Não. Eu não tenho essa disciplina. Somente quando tenho alguma coisa em vista. Agora mesmo tem uma gravação de CD. Eu centralizo exatamente naquilo que eu tenho que fazer profissionalmente.

PW: Que piano tens em casa?
Eu tenho um Schiedmayer, alemão, de família. Um piano da década de 30. Não é um piano de cauda, é um piano de armário. Um piano muito bom. Tem uma qualidade sonora muito boa.

PW: Tu mencionastes um projeto novo de um CD?
É um projeto em conjunto com a cantora Luciana Kiefer. Nós ganhamos o Fumproarte esse ano e vamos gravar então as canções para voz e piano do pai dela, Bruno Kiefer e as canções para voz e piano do meu professor de composição, Armando Albuquerque. São obras muito interessantes, musicalmente lindíssimas e tocam nessa coisa que é típica da música erudita do RS, que é a interação com a poesia. Estou muito entusiasmado.

PW: Com todos os recursos disponíveis e tecnologias mais modernas, você vê muita diferença no ensino da música hoje em dia, em comparação com a sua época?
Faz sem dúvida. Eu não sei como se aprendia música. Porque hoje a velocidade que se tem na aquisição da informação é muito maior. Tudo é mais imediato, não só como notícia de imprensa, mas como produto. Tradicionalmente, se diz que foi só no século XX que se teve toda noção da música que tinha ocorrido até então. Até aquele momento não se tinha essa noção. E agora, no século XXI é a primeira vez que a gente tem toda essa informação a disposição.

PW: Tu já tocaste piano eletrônico?
Nós temos aqui, na pós-graduação, mas não é o meu instrumento. Eu sinto falta do controle de relação braço, mãos, dedos, teclado, condução de som. Esse conjunto físico todo. O acústico tem mais gradações.

PW: E você utiliza a tecnologia aplicada à música? 
Eu uso várias tecnologias, mas os meus alunos usam mais. Os meus alunos usam muito softwares de notação musical para suas composições. Eu aprendi a compor com lápis e papel. Reconheço que os softwares tem muitas vantagens como, por exemplo, poder imediatamente ouvir o que eu fiz.

PW: O que você tem escutado atualmente?
Eu sempre escuto aquilo que eu estou trabalhando nas minhas aulas. O próximo semestre vai ser um semestre em que um dos temas será música do século XIX. Então, eu estou ouvindo novamente uma série de coisas do século XIX, que eu não ouço desde o verão passado. Raramente eu tenho um interesse de audição que seja desligado das minhas atividades docentes.

PW:Você já fez trilha sonora para dois filmes. Tem mais algum projeto previsto para trabalhos com cinema?
Não. Eu não pretendo voltar a fazer. Eu fiz música para dois filmes, um deles foi o “Me Beija”, do Werner schünemann, que foi uma experiência muito prazerosa. É uma música realmente que eu gosto de ter feito como fiz. E fiz música para “Anahy de las Misiones”  que é uma música que está muito mal colocada no filme. Então, eu prefiro ficar com a boa experiência de ter trabalhado com o Werner e esquecer o resto e não voltar para esse meio.

PW: O que representa a conquista do Prêmio Joaquim Felizardo?
Eu recebi o Açorianos de melhor disco erudito, em 2001, com “Uma idéia de Café”, que tem a música para piano de Armando Albuquerque. Agora, o Prêmio Felizardo, o que pra mim foi uma surpresa absoluta, porque justamente no ano de 2009 eu praticamente não atuei como músico. Veio como uma grande surpresa. Mas ocorreu uma coincidência: esse ano eu faço 60 anos. Então, estou considerando esse prêmio como um presente de 60 anos. Fiquei muito feliz com essa menção, com essa lembrança.

 


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