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Theatro São Pedro


End.: Praça Marechal Deodoro, 15
Complemento: Esquina Rua General Câmara, 521 e Rua Riachuelo
Tombado: IPHAE - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado e IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (incluso na área Praça da Matriz e da Alfândega: sítio histórico)

Em agosto de 1833, doze cidadãos de sobrenome luso, cada um com dez ações de cem mil réis, formaram uma associação e endereçaram memorial ao Presidente da Província, Manoel Antônio Galvão, pedindo "beneplácito e auspício" para o plano de edificar um teatro com o nome de Theatro São Pedro de Alcântara. 

O Presidente da Província doou um terreno de 968m² na praça principal e, segundo o arquiteto e historiador Riopardense de Macedo, solicitou um projeto à Corte Imperial nos moldes dos centros europeus, motivo de orgulho diante das demais províncias do Império. O projeto, em estilo neoclássico, teria vindo do Rio de Janeiro com outro projeto, gêmeo, para a Casa de Câmara.

Sob a responsabilidade do construtor João Batista Soares da Silveira e Souza e do tesoureiro da Associação, Manoel Domingues da Costa, as obras são paralisadas nos alicerces, de 1835 a 1845, em meio à histórica Revolução Farroupilha. Após a pacificação de Ponche Verde, as obras do teatro são retomadas por uma nova sociedade, encabeçada por Antônio Joaquim da Silva Mariante apoiado pelo Presidente da Província, Duque de Caxias, que reconhece a importância de um teatro público para cidade, já que as demais casas de espetáculos eram particulares.

Em 1847, a Assembléia concede um empréstimo no valor de dezesseis contos de réis, mas a sociedade organizada por Mariante abdica do gerenciamento da obra, oferecendo ao Governo a compra dos alicerces, já concluídos. Em 1849, o Presidente da Província, Francisco José de Souza Soares d"Andréa promove uma nova sociedade por ações, os alicerces são arrematados e o engenheiro e arquiteto alemão Georg Karl Phillipp Theodor von Normann é encarregado de elaborar um novo projeto, mais audacioso em suas dimensões.

Normann, com um prazo exíguo para desenvolver o novo projeto utilizando as fundações pré-existentes, tentou dar conta das injunções de um programa complicado, sobretudo devido às exigências de previsão de dependências, acessos e deslocamentos internos, de acordo com o escalão social do frequentador. Günter Weimer relata:

"Normann[...] reservou o vestíbulo de entrada para o convívio da pequena burguesia e apenas um "panteon" para o convívio da alta burguesia (que alugava os camarotes) e da média burguesia (que era confinada nos balcões). Nos intervalos, esta podia descer ao "panteon" para admirar a indumentária das primeiras-donas da sociedade local. Cuidara Normann de prover as escadarias de acesso com grades de ferro batido para que a pequena burguesia pudesse ver o desfile nos corredores dos camarotes e para que ficasse em baixo, em sua condição social inferior, sem se misturar com as pessoas de "bem" da sociedade. Cuidadosamente canalizara o fluxo dos camarotes para o "panteon" passando diante das escadas para que os aspirantes-a-burguês, atrás das grades, pudesse se deslumbrar com a grandiosidade do desfile. E ao povo, à plebe rude, ficavam reservados os piores lugares nas galerias superiores - no galinheiro - como se dizia então. [...] Como se percebe, o projeto foi concebido dentro da melhor moral - moral burguesa, obviamente."

Com linguagem arquitetônica histoicista de inspiração clássica possui uma volumetria simples e sóbria que transmite a idéia de solidez palacial. O pórtico avançado, simétrico, identifica a entrada principal, emoldurado por arcos plenos, com divisão frontal tripartida de quatro pilastras iguais, encimadas por um entablamento coroado pela balaustrada do terraço superior. As aberturas são amplas, dispostas ritmicamente e arrematas, na parte inferior, por delicadas balaustradas. No andar inferior são encimadas por arcos plenos compondo, na fachada principal, com a arcada do pórtico. Já no andar superior, a verga da abertura é reta, mas as janelas são realçadas por pequenos frontões.

O sucessor de Andréa manteve o compromisso com a construção. Em 1855, com nova injeção de recursos, as obras são dinamizadas e, em 27 de julho de 1858, é inaugurado o Theatro São Pedro. Na época, Porto Alegre possuía 20 mil habitantes.

No descampado que era a Praça da Matriz, destacava-se, majesto. Tinha o porte de uma verdadeira casa de espetáculos, "a altura dos foros [...] de cidade civilizada" que Porto Alegre pretendia ser, oportunizando a vinculação artística e cultural com o mundo extra-Província e extra-Império. Conde d"Eu, passando pela cidade rumo a Uruguaiana, em 1865, ficou impressionando ao ver o teatro, achou-o muito grande, até mesmo desproporcional para o pequeno tamanho da cidade.

Devido às dívidas, já necessitando de reformas, em 1862 o teatro foi incorporado pela Fazenda Provincial. Em 1866 as apólices emitidas pela Diretoria Geral dos Negócios da Fazenda foram resgatadas. Durante muitos anos sua administração ficou a cargo de funcionários postos à disposição ou pessoas "reconhecidas pela comunidade", funcionando sem fins lucrativos (eram cobradas taxas para cobrir despesas com pessoal e iluminação).

Em 1873 foi declarado em estado de abandono. Em 1877 passa por uma pequena reforma,  é instalada nova distribuição de gás e um refletor mais potente para iluminação do proscênio. Em 1889, sem conservação, novamente o prédio está degradado.  Em 1890, para tentar resolver o problema, o governo designou uma comissão para administrar o estabelecimento. Nesta época, objetivando uma separação ainda maior entre os freqüentadores, são anexadas duas escadas externas, laterais à edificação, descaracterizando o projeto original. Em 1928 o governo do Estado passa a gerir o teatro com espírito empresarial, arrendando-o a um particular para que fosse administrado sem ônus para o Estado. No final da década de 1950 a vinculação direta com o estado é reestabelecida.

Grandes espetáculos marcaram seus 115 anos de existência, até seu fechamento, em 1973, por falta de condições técnicas - madeiramento comprometido pela ação dos cupins, instalações elétricas mal adaptadas, pisos perigosos, iluminação precária, equipamentos cênicos desatualizados, instalações sanitárias precárias ou inexistentes.

Em 1975 foram iniciadas as obras de "reconstrução" a partir da idéia de integração do passado com o presente, da memória com a atualidade. Os trabalhos de restauração, dirigidos por Eva Sopher (presidente da Fundação do Theatro São Pedro), foram orientados pelo arquiteto Carlos Antônio Marcuso. A intervenção teve por objetivo recuperar a estrutura original do teatro e, simultaneamente, adaptá-lo às novas tecnologias, tais como ar condicionado, iluminação, camarins, elevador, sistema de troca rápida e eficiente de cenários e instalações hidrossanitárias.

Escavações no subsolo ampliaram a área inferior, com o acréscimo de 1880m², criando uma área para cenários com monta-cargas para levá-los para o palco, oficina, almoxarifado, apartamento do zelador, cozinha do restaurante (localizado no quinto pavimento), camarins coletivos com banheiros, bilheterias e área administrativa.

No segundo pavimento foram instalados o fosso da orquestra com 2,50m de profundidade e 9,00m de largura que pode ser elevado em três níveis e os camarins individuais, situados abaixo do palco. O terceiro pavimento apresenta a entrada principal, com acesso pela Praça da Matriz, onde as carruagens encostavam, em dias de chuva, o foyer inferior, com piso de mármore; a sala de exposições (onde era o antigo buffet), a chapelaria (antiga bilheteria), uma escada lateral que dá acesso ao foyer superior, ao café e ao terraço, uma porta de acesso à platéia e, lateralmente, duas escadas que conduzem ao quarto pavimento. O palco tem 133m² de área útil, 9.87m de largura, 5.50m de altura na boca de cena, 13.50m de profundidade, 9.30m de fundo (da cortina para cima) e 10.50m de altura no urdimento.

O quarto pavimento é destinado à primeira galeria, com camarotes totalizando 120 lugares. O quinto pavimento abriga a segunda galeria, também com camarotes, totalizando 96 lugares. Corredores semicirculares ao longo das galerias possibilitam o acesso aos camarotes. Uma modificação no projeto original introduziu uma abertura circular no foyer superior, interligando-o ao foyer inferior.

A terceira galeria, com arquibancadas de preços mais acessíveis, com capacidade para 110 pessoas, localiza-se no sexto pavimento. No sétimo e último pavimento encontra-se a área técnica, com cabine de controle de iluminação e de som. Em todos os andares forma executados sanitários, inexistentes no projeto original, utilizando o espaço das antigas escadas laterais por onde passavam os escravos rumo às galerias.

O teto da sala de espetáculos, adornado anteriormente com pinturas alegóricas, totalmente danificadas, foi contemplado com uma pintura coletiva, dividida por entalhes de madeira dourada, realizada por artistas locais - Carlos Antônio Mancuso, Léo Dexheimer, Plinio Bemhardt e Danúbio Gonçalves - utilizando como temática a flora e fauna do Rio Grande do Sul.  O lustre original, doado pelo governo francês em 1858 e retirado em 1885, serviu de inspiração para Carlos Mancuso que projetou o lustre atual, com 3.70m de altura, 600kg, 35 mil peças de cristal nacional e da boêmia e 68 mangas.

O veludo das poltronas, provavelmente italiano, utilizado a partir de 1900, em tons de verde com estampas em vinho, foi fielmente reproduzido. A cortina do palco é em veludo grená, odornada por galões originais restaurados. Segundo Damasceno, a decoração interna do teatro assim como a pintura de seu pano de boca foi executada pelo artista italiano Bernardo Grasseli, auxiliado pelo pintor alemão Hermann Traub. As bandeiras das portas que dão para o pórtico frontal e alguns gradis junto a balaustrada das escadas laterais, com motivos Art nouveau, foram acrescentados no início do século XX.

As escadarias laterais externas, acrescentadas no final do império e o revestimento que recobria os gradis dos camarotes, elementos que descaracterizavam a concepção original do teatro, forma retirados. Em 27 de junho de 1984, o Theatro São Pedro foi reaberto e vem operando, diariamente, com uma imensa programação em todos os setores.

A administração da instituição preocupa-se em manter a já conquistada reputação de ser uma das mais belas casas de espetáculos do mundo, que recebe milhares de visitantes, além do público que habitualmente prestigia os eventos de teatro, dança, música, exposições e outras manifestações culturais.

Referências:
ZAMIN, Frinéia;MACHADO, Nara Helena Naumann. Instrução para o Tombamento dos conjuntos Urbanos da Praça da Matriz e da Praça da Alfândega. Julho 2000. Prefeitura de Porto Alegre
http://www.teatrosaopedro.rs.gov.br/
http://www.cultura.rs.gov.br/
http://www.portoimagem.com/




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