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Biblioteca Pública do Estado

End.: Rua Riachuelo, 1190

Complemento: Esquina General Câmara
Tombado: IPHAE - Instituto do Patrimônio Histórico e IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (incluso na área "Praça da Matriz e da Alfândega: sítio histórico")


A história da Biblioteca Pública do Estado começa na Província de São Pedro durante o reinado de Dom Pedro II. Em 30 de março de 1871 o deputado João Pereira da Silva Borges Fortes Filho apresentou à Assembléia Provincial do Rio Grande do Sul um projeto de lei pedindo a criação de uma biblioteca oficial. O projeto foi aprovado e transformado na Lei n° 724 de 14 de abril do mesmo ano, tendo sido sancionado pelo então presidente da Província, Francisco Xavier Pinto de Lima.

 
Em 21 de janeiro de 1877 a BPE foi instalada e aberta ao público possuindo 1.809 obras em 3.566 volumes. Seu diretor e principal organizador foi o Dr. Fausto de Freitas e Castro. Neste ano atendeu 1483 leitores que consultaram 691 obras.

Em 1891 o RS sofre forte influência do pensamento de Augusto Comte. Júlio de Castilhos imprime então à Constituição do Estado uma linha de orientação positivista. Uma ideologia progressista e ao mesmo tempo autoritária pautou o estilo de seu governo, definindo os rumos do Partido Republicano no sul do Brasil. Borges de Medeiros deu continuidade à obra política e administrativa do Castilhismo.

A Biblioteca Pública é profundamente influenciada por este pensamento, tendo sido anexada administrativamente ao então recém criado Arquivo Público, a partir de 1906. A partir desta data o poeta parnasiano Vitor Silva, nomeado diretor, empenhou-se em dar novas características à Instituição, procurando normas técnicas para os catálogos e introduzindo a Classificação Decimal Universal (CDU) na organização do material bibliográfico.

Com projeto do Arquiteto Alphonse Herbert, em 1912 inicia-se a construção da primeira etapa do prédio da BPE. Em 1915, já autônoma, transfere-se para a sede atual na rua Riachuelo, esquina General Câmara (antigamente conhecidas como Rua do Cotovelo e Rua do Ouvidor). Construído por sugestão de Vitor Silva, a Biblioteca foi projetada por engenheiros das Obras Públicas do Estado.


Tanto na sua fachada como em seu interior apresentam influência da doutrina positivista, utilizando vários estilos em sua representação. A fachada é contornada por 10 bustos dos patronos do calendário positivista, que caracterizam os diversos aspectos do conhecimento - Júlio César, São Paulo, Carlos Magno, Dante, Guttemberg, Shakespeare, Descartes, Frederico III, Aristóteles e Bichat (ficam faltando três personagens do total de 13 - Moisés, Homero e Arquimedes). O projeto original previa linha dupla de janelas para a Rua Riachuelo com medalhões entre elas com retratos de Laplace, Descartes, Camões, Bichat, Sócrates, Plutarco, José Bonifácio e Gonçalves Dias.

Em seus aspectos formais, a fachada mostra um vocabulário de tradição clássica, inspirada em modelos greco-romanos, classificado como neoclássico. Apresenta uma modulação horizontal em dois níveis. No primeiro, a alvenaria apresenta uma rusticação, imitando pedra romana. No segundo, a ordem jônica define o ritmo do projeto. As colunas jônicas estão praticamente embutidas nas paredes. A entrada principal, com seu entablamento, define um módulo vertical na lateral direita. O acabamento é semelhante ao do Palácio Piratini, que na época da construção da biblioteca estava quase pronto.

Os espaços internos combinam diversos tipos de decoração historicista: o salão de leitura é clássico, em estilo Império, enquanto outros ambientes apresentam referências a outros estilos, entre eles o rococó, o egípcio, o gótico e o florentino. A porta principal do vestíbulo é em madeira esculpida e emoldurada em gesso dourado com soleira em mármore. A iluminação elétrica era novidade e foi projetada com requinte e exuberância.

O acesso externo ao subsolo (ou primeiro pavimento) é feito pela rua General Câmara e, internamente, pela área de circulação e escada. Possui um jardim interno, uma área coberta e os seguintes compartimentos: sala de coleções especiais e de coleções doadas, sala de processamento técnico equipada com serviço de computação, sala de pesquisa, setor de empréstimos domiciliares, almoxarifado, Sala da Associação de Amigos da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul e sanitários. Originalmente havia uma "Sala dos Homens", em conformidade com o espírito patriarcal da época.

No pavimento superior, um hall principal distribui a circulação aos outros níveis. A escadaria metálica foi importada da fábrica Alemã Joly, com parafusos marchetados em forma de flores e peitoril decorado. A esquerda, o usuário encontrava o grande Salão de Leitura que originalmente estava separado em três grandes setores: a Sala de Conferências A, a Sala das Senhoras B, a Sala de Conferências C. Esta possuía uma tribuna em madeira lavrada acompanhada de um grande número de cadeiras em forma de platéia. A Sala das Senhoras tinha uma decoração feminina e floral, em conformidade com a imagem da mulher desejada pela sociedade. Provavelmente, nesta sala, as mulheres tratariam ou pesquisariam assuntos femininos como economia doméstica, educação dos filhos, preparo das filhas para o casamento, namoros, noivados, culinária, bordados, moda, enfim, "assuntos de mulheres".

As Salas de Conferência mantêm a decoração original, com colunas de mármore com capitéis em bronze dourado. Teto e paredes foram decorados com pinturas de Ferdinand Schlatter. As três salas apresentam arcos almofadados com medalhões em bronze dourado com efígies de brasileiros ilustres como José Bonifácio, Visconde do Rio Branco, Quintino Bocaiúva, Joaquim Nabuco, Gonçalves Dias, Araújo Porto Alegre, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Raul Pompéia, Olavo Bilac, Castro Alves, Carlos Gomes, Araújo Vianna, Pedro Américo, Victor Meirelles e José de Alencar. 

A Sala Borges de Medeiros abrange dois espaços congregados, um para pesquisa e outro de acesso ao elevador elétrico (Otis), que foi um dos primeiros elevadores instalados no estado, representando uma inovação tecnológica para a época.  Executado em madeira e ornamentos dourados em estilo gótico florentino, facilitava a circulação de usuários, funcionários, livros e documentos.

Segundo o professor Júlio Nicolau Curtis "o luxo dos reposteiros, o conforto das tapeçarias e o refinamento do mobiliário hospedaram por vários anos o Gabinete da Presidência do Estado". Borges ali despachava enquanto o Palácio Piratini estava em construção. Possuia mobília de Luís XIV, sendo que a mesa era cópia de uma existente em Versailles. As portas laterais abrem para uma área ajardinada, com uma fonte de pedra e uma estátua art-nouveau em cuja base está escrito: "envolve-me um sonho de beleza".

As galerias metálicas para guarda do acervo bibliográfico foram concebidas dentro da concepção de arquitetura da engenharia do século XIX (tal como os interiores do Arquivo Público), quando a figura do engenheiro, com suas estruturas metálicas, sobrepujava a figura do arquiteto. A proposta lembra a estrutura metálica de Henri Labrouste para a Bibliothèque Nationale de Paris (1860-68). É inteiramente metálica, em três níveis, executada em chapas de aço pesando seis toneladas.

O terceiro pavimento possui oito compartimentos: galerias, sala da administração, Sala Mourisca, Sala do RGS, secretaria, sanitário, cozinha e caixa da escada. A decoração do Salão Mourisco, executada por Ferdinand Schlatter, é inspirada no Palácio do Alhambra. Destaca-se a pintura dourada, o mobiliário e as luminárias em estilo gótico florentino e as esculturas. Cada canto possui uma coluna de mármore com bustos de Camões, Shakespeare, Dante e Homero. Um pedestal em mármore azul com colunas duplas abriga uma tortuosa serpente. Dois bustos de Luis Sanguini, de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros e uma escultura da "Esfinge" completam a decoração.

Em 1919 uma reforma modifica o formato da planta baixa, que passa a ter a forma de um U. Em 1920 foram encomendadas 40 colunas para a firma José Vicente Friederichs, um elevador de luxo para o vestíbulo de entrada e parte dos lustres. A porta principal foi alargada e a escada de ferro modificada. O piso foi executado em madeira do Pará: amarelo (pau amarelo) e castanho escuro (acapú), cada sala possui um desenho diferente. Nas arcadas que separam o prédio de sua ampliação foram colocadas 48 colunas de mármore de Carrara, com capitéis de galvano-bronze. Em 1920 foram concluídas as obras de ampliação e, em 1921 o jardim com sua fonte. Neste período a obra foi fiscalizada pelo engenheiro Theóphilo Borges de Barros. O prédio foi inaugurado como parte das comemorações do centenário da Independência a 07 de setembro de 1922.

Em 1944, após vistoria, a Sala de Leitura do subsolo foi considerada insalubre devido à ventilação imprópria e pouca iluminação, sendo transferida para a Sala de Conferências. O mobiliário foi transferido para a Associação Riograndense de Imprensa, retornando em 1960. Em 1956 o prédio perdeu muitas de suas pinturas originais, sob a orientação de Ado Malagoli. A justificativa era que a pintura não tinha valor artístico e não se adequava à arquitetura do prédio.

Em 1960 os Salões Mourisco e Egípcio foram restaurados. Em 1974 a Biblioteca esteve fechada por um ano para reforma: pintura interna e externa, rede elétrica e hidráulica, piso do térreo e do primeiro pavimento, impermeabilização do subsolo, substituição das portas internas e restauração das telas de valor histórico. Em 1972, no governo Triches, parte dos móveis e objetos de adorno forma transferidos para o Palácio Piratini.

Em 1986 o prédio foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE) e em 2000 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).  Neste ano já contava com 100.000 volumes, entre os quais obras raras, sendo a mais antiga de 1519. Cabe salientar que ao longo de sua história tem abrigado diversos tipos de manifestações da sociedade riograndense, desde encontros políticos e literários, até palestras, cursos, conferências, reuniões, concertos musicais, saraus, apresentações de orquestras e, principalmente, atividades da Academia Riograndense de Letras.

A partir de 1996 foi iniciada a informatização do processamento técnico da Biblioteca e constituído o Setor de Multimeios, que oferece acesso gratuito a Internet, e-mail, vídeos e CD-ROM. A Biblioteca mantém um Setor Braille voltado aos portadores de deficiência visual.

O Salão Mourisco oferece uma agenda artística e cultural de março a dezembro em parceria com a Associação dos Amigos da Biblioteca Pública. Através de agendamento são realizadas visitas guiadas para pessoas e grupos.

Novos projetos em implementação visam resgatar as formas originais da Biblioteca (Projeto Monumenta), recuperar seu acervo e ampliar as oportunidades de acesso a todos os públicos a que a Biblioteca se destina.

Referências:

ZAMIN, Frinéia; DE BITTENCOURT, Dóris Maria Machado - Instrução para o Tombamento dos conjuntos Urbanos da Praça da Matriz e da Praça da Alfândega. Julho 2000. Prefeitura de Porto Alegre
LAZZARI, F. (Org.) Associação dos Amigos da Biblioteca Pública: cultura é nossa causa. Porto Alegre: s.d. Folder
GRANDI, C. Apresentação. In: BAKOS, M.;PIRES, L..de A.. Os escritores que dirigiram a Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDIPUCRS/USF, 1999. p.7-9
MOURA, N. (Org.) Catálogo de obras raras ou valiosas da Biblioteca Pública do Estado. Porto Alegre: Globo, 1972. Edição comemorativa do centenário de fundação,1871-1971.
RIO GRANDE DO SUL. Secretaria da Cultura. Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: [2000] Folder.
PROPAR/UFRGS.“Positivismo: Arquitetura de Porto Alegre no período positivista” do Memorial do Rio Grande do Sul, 2007  
http://www.bibliotecapublica.rs.gov.br/ 




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