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Entrevista

Apocalypse Band - o melhor do Prog Rock gaúcho

22/10/2007

Há 24 anos, nascia o Apocalypse, o mais importante grupo de art rock gaúcho, com 10  álbuns gravados, incluindo um duplo ao vivo nos Estados Unidos, participação em coletâneas internacionais e um contrato com a gravadora francesa MUSEA. Em 2007 o Apocalypse está lançando seu mais recente trabalho, o CD e DVD Apocalypse Live in Rio, gravado ao vido no Teatro Municipal de Niterói, no  Rio de Janeiro. O grupo é formado pelo compositor e professor de música do Instituto de Artes da UFRGS, Eloy Fernando Fritsch (teclados), Ruy Fritsch (guitarra) e Chico Fasoli (bateria), Magoo Wise (baixo) e Gustavo Demarchi (vocal e flauta). Após o show ocorrido no Teatro Renascença em Porto Alegre, o Apocalypse segue divulgando seu novo álbum em São Paulo onde irá tocar em dois Festivais, o 1º. São Paulo Art Rock e o II Cultura Rock. Entre um show e outro a produção do PortoWeb Tambor conversou com os músicos sobre a trajetória do Apocalypse e o novo lançamento em DVD.


PW – Como começou a carreira da banda?

Chico Fasoli: A banda foi formada em setembro de 1983 para participar de um festival estudantil que acontecia anualmente em Caxias do Sul. Todos que iniciaram eram colegas de escola. Da primeira formação oficial do Apocalypse restam três integrantes, os irmãos Fritsch e eu. Sempre ouvimos muita música e escolhemos desde o início tocar rock progressivo. Claro que nossas influências não se resumem apenas a bandas progressivas, mas sempre foi muito importante para nós a qualidade dos músicos e suas composições. Podemos dizer que os grupos que mais motivaram a escolha estética do Apocalypse foram: Yes, Pink Floyd, Genesis, Rush e Marillion.


PW - É difícil viver de música no sul?

Gustavo Demarchi: O cenário é provavelmente como o de qualquer cidade longe da metrópole. Parece que não, mas estar longe dos grandes centros ainda faz diferença. Além disso, estamos atrelados ao que as grandes empresas de comunicação nos impõem como sucesso musical. Somos um estado periférico, em um país periférico que não dá valor às manifestações culturais relevantes. Então, sim, as coisas tendem a ser mais difíceis. Mas aos poucos, com os recursos que dispomos, temos furado alguns bloqueios.


PW - Como vocês enxergam hoje o cenário musical brasileiro?

Magoo Wise: O Brasil tem dimensões continentais, com uma pluralidade de culturas e etnias, motivos estes que parecem ser suficientes para que haja espaço para todas as expressões artísticas. No entanto, nem isso basta pois os principais meios de comunicação concentram seu foco sempre nos mesmos "produtos". Posso dar um exemplo disto. Uma noite dessas, ao assistir a programação da nossa emissora líder de audiência, durante um intervalo comercial a mesma cantora apareceu em quatro chamadas diferentes: uma vendia tinta para cabelo, a outra cerveja, na outra o seu DVD e na quarta aparecia como atração de um programa da emissora que iria ao ar nos próximos dias. Ou seja, depois dessa "massa" de informação quem ousaria julgar o trabalho dela sobre o ponto de vista técnico e artístico? Que argumento pode ir contra as milhares de cópias consumidas e todos os produtos que a imagem dela vende? Mas enfim, observando globalmente, se serve de consolo, este fenômeno não ocorre só no Brasil. Desde a invenção do vídeo-clipe é que a imagem vem se sobrepondo a música, mesmo quando se trata de vender música. Assim muitos trabalhos de qualidade, que não conseguem se adequar a essa indústria de marketing, terminam no ostracismo, obtendo reconhecimento apenas de uma minoria que se dá ao trabalho e que tem recursos para vislumbrar além do que as grandes redes de televisão e rádio transmitem em nosso país.


PW - E a cena musical de Porto Alegre, especificamente?

Gustavo Demarchi: Não acho que exista uma cena musical de fato, pelo menos não como entendo uma cena, ou como são as grandes cenas ao redor do mundo, mesmo no Brasil (Tropicália, Clube da Esquina, Rock de Brasília), embora saiba que isso é reflexo de muitas coisas. Enfim, você pode definir um cenário de bandas pelo que aparece na mídia, mas isso nem sempre quer dizer qualidade ou cooperação, pois não acredito que uma única banda ou artista possa definir um cenário e esse é o problema. Existem uns poucos que aparecem como "definidores de uma cena musical" mas que nem sempre de fato o são. Em qualquer movimento artístico, existe uma união, uma troca de influências e de conhecimento entre uma quantidade de envolvidos. E o que acontece é que aqui a grande maioria corre por fora, batalhando a duras penas seu espaço. Isso acaba tendo um lado positivo, pois das dificuldades saem idéias criativas, embora isoladas.


PW – O que vocês faziam antes de se tornarem músicos?

Chico Fasoli: Estudante.

Magoo Wise: Sempre trabalhei na área de TI.

Gustavo: Eu sempre quis ser músico desde criança, então isso sempre esteve presente na minha vida, aprendi a conciliar com o meu dia a dia. Um dos diferenciais da banda é que todos, menos o Eloy Fritsch, são profissionais autônomos, o que facilita para conciliar suas agendas com a da banda. Eu tenho um estúdio de design que trabalha principalmente com identidade visual e projetos gráficos para capas de livros, web, etc.

Eloy Fritsch: Aos 13 anos, trabalhava na Rádio Caxias com meu pai, e estudava no colégio perto de casa.

Ruy Fritsch: Trabalhava e estudava.


PW – Vocês consideravam outras opções de vida para o futuro, além da música?

Chico Fasoli: Éramos todos muito jovens, na época. Eu ainda não havia decidido o que seria profissionalmente.

Eloy Fritsch: Quando criança, eu queria ser astrônomo ou biólogo. Mas, aos 14 anos, descobri minha vocação pela música e comprei meu primeiro violão. Daí tudo mudou. 

Magoo Wise: Felizmente (ou infelizmente) eu sempre fui bem lúcido para perceber a dificuldade de mercado para o tipo de som que gosto e me proponho a fazer. Em virtude destas dificuldades, nunca abandonei minhas outras atividades com a informática. Assim vou procurando conciliar ambas as coisas, tentando unir o útil ao agradável e ao rentável.

Gustavo Demarchi: Eu sempre fui apaixonado por arte, tenho a sorte de trabalhar com criação de capas de livros e discos, o que sempre adorei fazer. Se não fosse músico, provavelmente estaria envolvido com arte de alguma forma, talvez cinema, mas a verdade é que não consigo imaginar a música fora da minha vida.

Ruy Fritsch: Eu comecei estudando violão aos 13 anos e comprei minha guitarra muito cedo para começar a tocar no Apocalypse. Não seria feliz se tivesse que fazer outra coisa e se a música não fosse parte da minha vida.


PW – Quais são as influências musicais da banda?

Magoo Wise:  No Apocalypse temos os mais variados gostos. No que se refere à bandas, ouvindo mais atentamente o trabalho que realizamos, encontramos referências dos grandes nomes do estilo, como YES, Rush, Genesis, Jethro Tull, Marillion, Pink Floyd, e algo de hard rock setentista, como Deep Purple e Uriah Heep. Mas se formos falar do que cada um gosta de ouvir, vamos de música erudita até Metallica, passando por Kraftwerk, Jean-Michel Jarre, Stevie Wonder... Melhor eu parar por aqui para não ouvir sermão depois!


PW – E quais foram às inspirações para o último trabalho - Live in Rio?

Eloy Fritsch: Este DVD é uma coletânea das músicas dos álbuns lançados na França. Já havíamos gravado o CD duplo ao vivo nos Estados Unidos com o repertório dos discos franceses. Mas o DVD contém músicas do álbum Refúgio de 2003 que nunca haviam sido tocadas ao vivo. Além do mais, ele é todo cantado em inglês. O projeto surgiu do convite da gravadora carioca Rock Symphony para participar do festival Rock Symphony for the Records ocorrido em 2005. Escolhemos o repertório, pensando no que poderia funcionar melhor ao vivo. Também levamos em consideração a preferência dos músicos por algumas músicas. Tanto que decidimos fazer um Medley de composições que não puderam ser tocadas na sua totalidade, na gravação do DVD. O repertório autoral do Apocalypse é numeroso e precisaríamos de bem mais do que 75 minutos para incluí-lo. Por isso, acho que o Medley funcionou muito bem nesse show. A motivação foi grande porque este é o primeiro registro oficial do grupo em DVD. Hoje vemos o projeto concretizado e rendendo entrevistas e matérias em todas as mais importantes revistas de rock do Brasil, gerando convites para festivais nacionais e internacionais de rock e muitos elogios de admiradores do Apocalypse. Em 2007, foi criado o nosso fã-clube oficial no Rio de Janeiro, iniciativa que nos deixou muito felizes e motivados para continuar trilhando o caminho do trabalho autoral.


PW - O que o último CD/DVD traz como diferencial, em relação aos outros trabalhos?

Gustavo Demarchi: Muitas coisas. Ele é a ponte entre duas filosofias distintas que traçam uma linha divisória entre o que a banda foi por mais de vinte anos e o que é agora. Mudamos de formação, mudamos o idioma das canções, acrescentamos novos elementos e creio que nos tornamos mais orgânicos, sem perder a qualidade técnica e a sutileza que sempre foram marca da banda. Live in Rio traz canções de discos lançados pela formação anterior, mas com essa filosofia de inovação. Tivemos a oportunidade de realizar novos arranjos nos  temas antigos e mostrar aos fãs uma abordagem diferente para canções registradas há mais de 15 anos, e que hoje ganham outra relevância, outra atmosfera. Poucas bandas têm a chance de repaginar sua história, principalmente com a aceitação que temos alcançado. E isso está registrado não só em CD como também no primeiro DVD da banda. Sem falar que ainda tem muito mais por vir.


PW – Contem algumas passagens marcantes da carreira do Apocalypse.

Magoo Wise: Posso falar com propriedade apenas dos momentos mais recentes, visto que minha "saga apocalyptica" data de apenas uns três anos para cá. No decorrer deste período, as coisas que mais me marcaram foram a gravação dos 2 DVDs e um show que realizamos no Canecão - RJ, em conjunto com o grupo inglês Uriah Heep. Nesta oportunidade, não só pude subir em um dos palcos mais famosos do Brasil como, de lambuja, pude realizar o sonho de conhecer pessoalmente alguns dos meus maiores ídolos no rock.


PW - Quais são os projetos da banda?


Chico Fasoli: Em novembro deste ano estaremos em turnê por São Paulo para divulgar o DVD "Live in Rio". Em 2008 estaremos lançando nosso segundo DVD, gravado ao vivo no Teatro da Universidade de Caxias do Sul, com a participação de nosso grande amigo Hique Gomez. Além disso, estaremos completando 25 anos de banda e estamos elaborando um grande projeto para comemorar esta data.


PW - Como é feita a administração dos estúdios da banda?

Eloy Fritsch: Temos dois estúdios particulares porque moramos em cidades diferentes. Parte do grupo está em Caxias do Sul e o restante em Porto Alegre. Os estúdios são apenas para nosso uso em atividades de composição, ensaio e gravações. Costumamos ensaiar e realizar a produção um pouco em cada cidade, aproveitando o máximo das viagens para fazer divulgação do grupo e preencher a nossa agenda de shows. Ambos estúdios estão baseados em Pro Tools e por isso as gravações e arquivos de áudio podem ser trocados sem problema de compatibilidade.


PW – Como se dá o processo de criação das músicas?

Eloy Fritsch: O temas são criados no teclado, guitarra e violão. A partir de 1988, quando a banda se tornou um trio, o teclado assumiu um papel importante., tendo muito espaço nas músicas. Logo, com as premiações nos festivais, a criatividade e a motivação foram crescendo, assim como o prestígio do público. Ao assinar o contrato com a MUSEA, decidimos aperfeiçoar nossas composições e fazer um registro que fosse marcante na história da banda, reunindo o material musical elaborado entre 1991 e 1994. Assim surgiu o álbum Perto do Amanhecer. Ainda me lembro quando estávamos compondo trechos da Fantasia Mística em 1986, com o órgão ligado ao pedal flanger. A música foi amadurecendo e crescendo em qualidade, à medida que compartilhávamos as idéias, até 1994, quando se tornou pronta para ser gravada. Por exemplo, a música Lágrimas era uma balada e acabou se tornando uma música no estilo neo-progressivo. E assim, várias composições foram sendo modificas e arranjadas conforme a banda ía traçando seu caminho. Mais recentemente, com a ajuda do Gustavo e do Magoo, arranjamos composições do CD Refúgio, criando novas partes e adaptando-as ao inglês. Músicas como Freedom e Waterfall of Golden Waters sofreram inclusive mudanças estruturais. As composições mais progressivas possuem várias sessões em que buscamos um desenvolvimento maior dos temas. Existe a preocupação em fazer uma música que aproveite a capacidade e a qualidade dos músicos priorizando o feeling. As composições surgem de uma motivação quase incontrolável. Ao iniciar uma composição, por exemplo, não consigo parar de pensar nela até que esteja razoavelmente satisfeito com o resultado. Em geral, criamos melodias que são harmonizadas e acompanhadas por outros instrumentos. Também criamos alguns duetos com guitarra e teclado. Normalmente adotamos certos critérios típicos do rock progressivo como: composições estruturadas com várias sessões, passagens instrumentais, instrumentação não convencional ao rock, alterações de compasso, utilização de ritmos, harmonias não triviais e instrumentos solo. O Apocalypse é o caminho que encontramos para mostrar nossa arte e nossos pensamentos, e expressar nossos mais profundos sentimentos sobre o mundo que nos cerca. Apocalypse significa revelação - a de um mundo melhor e cheio de esperança. Que a sabedoria prevaleça sobre a ignorância. Que a paz e o amor sejam eternos. Que o homem pare de destruir seu planeta através dos conflitos, guerras e poluição. Que o homem deixe de ser tão materialista. Nossas preocupações também são voltadas aos temas existenciais e místicos. Sabemos tão pouco sobre nós mesmos e nossa existência na Terra; os mistérios que afligem a humanidade são tantos e tão profundos;  nossa compreensão perante o eterno e o infinito é tão limitada. Outra característica marcante do Apocalypse é que não tentamos usar as velhas fórmulas para buscar o sucesso comercial. Preferimos música enquanto arte. A música que é a expressão interior dos nossos sentimentos.  Tentamos levar a nossa arte até as pessoas que são sensíveis e que precisam dela para alimentar seu espírito. Para o Apocalypse, umas das maiores realizações é quando notamos que a nossa música toca as pessoas. Talvez essa seja a maior recompensa para o músico compositor.


PW – Quais são as outras paixões de vocês?

Chico Fasoli: Paddel, Futebol, camping e pescaria.

Eloy Fritsch: Ficção Científica, esportes, praia, cinema, brincar com os filhos, passear com a família, piscina, ler, estudar.

Gustavo: Leitura, arte, escrever.

Ruy Fritsch: Cinema, novela, passear.

Magoo Wise: Ficar em casa curtindo meus brinquedos (baixos e computadores) e dirigir. Provavelmente "motorista" seria a próxima opção na minha lista de profissões.


PW – Qual a opinião da banda sobre pirataria, MP3 e músicas disponíveis na Internet?

Magoo Wise: Eu vejo esta questão sobre duas óticas distintas. A grande empresa fonográfica e seus principais artistas, obviamente, perdem com a pirataria. No entanto os selos menores e os artistas em fase inicial e independente conseguem tirar algum proveito. Quando se está iniciando a divulgação  de um trabalho, na minha ótica, o importante é fazê-lo chegar ao máximo de pessoas possível. E nenhuma outra ferramenta disponibilizou esta divulgação de forma tão barata quanto a Internet. O único senão que vejo é que, uma vez disponibilizado o material na rede, meio que se perde o controle sobre ele, afinal a Web continua existindo como uma terra de ninguém. Assim, só aconselho que se tenha certa prudência no momento de selecionar o material que se pretende disponibilizar, pois não há como prever por onde ele irá circular, nem tampouco o uso que lhe será dado. O Apocalypse, por exemplo, disponibilizou o EP Magic, com as primeiras gravações realizadas em estúdio, em seu site oficial. Logo, qualquer pessoa pode entrar e baixar todas as músicas gratuitamente.


PW – Na opinião da Banda, como deveriam ser as ações de incentivo para a área musical?

Ruy Fritsch: Participamos de festivais regionais, nacionais e internacionais e achamos que são ótimas experiências, até mesmo porque vencemos os que participamos e isso impulsionou a banda para buscar novos desafios e melhorar a qualidade musical do repertório. Além disso, esses eventos representam oportunidades de convivência com músicos de outros lugares e diferentes culturas. Nós mesmos já organizamos dois festivais em conjunto com a Prefeitura de Porto Alegre, portanto temos a visão de que eles ajudam a revelar novos talentos e a impulsionar a carreira dos artistas. De uma forma geral, precisamos urgente do ensino de música nas escolas e de mais eventos musicais que priorizem os trabalhos autorais dos gaúchos. Deveria existir mais incentivo para a arte em nosso país, inclusive para a realização de mais festivais regionais e nacionais.


PW – O que falta realizar na carreira da Apocalypse?

Chico Fasoli: Bem, partindo do princípio de que somos uma banda que produz um som considerado alternativo, posso dizer que sou bastante realizado com as conquistas que já obtivemos. Mesmo assim, sou uma pessoa que não se contenta com o que já conseguiu, querendo sempre mais. Eu tenho o sonho de tornar meu trabalho mais reconhecido em meu País. Estamos na batalha há tanto tempo e nunca perdemos a alegria de tocar e o desejo de mostrar nossa música para o maior número de pessoas possível. Além disso, uma turnê no exterior seria a maior realização para todos os integrantes. Mas, o meu maior desejo é gravar um DVD tocando ao lado de uma orquestra sinfônica.


Mais informações: www.apocalypseband.com
Fã-clube oficial do Rio de Janeiro - www.apocalypsefc.kit.net
Vídeos e Músicas - www.myspace.com/apocalypsebr

Assista ao Vídeo da Apocalypse DVD Live in Rio 2007 no YouTube






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